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Os planos de fuga de Onetti

Samuel Titan Jr.

Depois de A Vida Breve, o autor dos personagens à deriva tem seus 47 Contos vertidos para o português

Baldi parou na ilha de cimento de onde se desviavam, velozes, os veículos, esperando o apito final do guarda, mancha escura sobre a guarita branca. Sorriu pensando em si mesmo, barbudo, o chapéu jogado para trás, as mãos nos bolsos da calça, uma delas fechando dos dedos em torno dos honorários de 'Antonio Vergara-Samuel Freider'. Tinha um ar jovial e tranqüilo, balançando o corpo sobre as pernas abertas, fitando, sereno, o céu, as árvores do Congresso, as cores dos coletivos. Seguro diante do problema da noite, já resolvido por meio da barbearia, do jantar, da sessão de cinema com Nené. E cheio de confiança em seu poder - a mão apertando as notas -, porque uma mulher loira e estranha, parada a seu lado, tocava-o de vez em quando com seus olhos claros. E se ele quisesse...

Os carros pararam e ele atravessou, alcançando a praça. Continuou andando, sempre calmo. Uma cesta de flores recordou-lhe o gradil de Palermo, o beijo entre jasmins da última noite. A cabeça despenteada da mulher caía em seu braço. Depois o beijo rápido na esquina, a ternura na boca, o interminável olhar brilhante. E esta noite, também esta noite. Sentiu, de imprevisto, que era feliz; tão claramente, que quase parou, como se sua felicidade estivesse passando ao lado e ele pudesse vê-la, ágil e fina, cruzando a praça a passos rápidos.

Sorriu para a água trêmula da fonte. Junto à grande menina adormecida em pedra, deu uma moeda de cobre ao homem andrajoso que não chegara a pedi-la. Gostaria, agora, de uma cabeça de menino para acariciar quando passasse. Mas os meninos brincavam mais à frente, correndo no retângulo de pedregulho avermelhado. Só conseguiu virar-se inflando os músculos do peito, pisando forte na grade que filtrava o vento quente do metrô. De O Possível Baldi

No quadro das letras latino-americanas do século 20, a literatura do Uruguai parece discreta, quase secreta, sem nenhum nome a contrapor aos de Borges e Cortázar, Rulfo e Carpentier. Ledo engano, que foi se corrigindo aos poucos, à medida que a poeira do boom assentava e deixava ver, entre outras coisas, a extraordinária ficção do nosso vizinho logo ao sul.

Desse ponto de vista, a safra editorial dos últimos anos não deixa nada a desejar: primeiro, A Vida Breve, romance crucial de Juan Carlos Onetti (1909-1994), traduzido por Josely Vianna Baptista; depois, uma antologia de Felisberto Hernández (1902-1964), finalmente em português, por obra de Davi Arrigucci Jr.; e agora, para rematar, os contos completos de Onetti, vertidos pela mesma tradutora, num trabalho preciso e precioso.

Já não era sem tempo, pois Onetti não é um autor para ser abandonado à fama tola de escritor 'difícil'. Basta ler os primeiros contos desse volume para ver como o jovem autodidata de 20 e poucos anos, recém-saído de Montevidéu para Buenos Aires, rapidamente dá forma a todos os seus grandes temas e procedimentos: a cidade moderna, o indivíduo em isolamento, o desejo de evasão, a vingança.

Assim, em Avenida de Mayo-Diagonal Norte-Avenida de Mayo (1933), o narrador de Onetti acompanha o 'esboço de vôo' de seu protagonista: num intervalo do trabalho no escritório, ziguezagueando pelo centro da capital portenha, Víctor Suaid tenta, à força de devaneio, converter seu percurso trivial em roteiro de aventuras ou, pelo menos, em cenário de uma catástrofe espetacular, que o salve da própria insignificância; não consegue, e deixa a cena 'cansado e calmo, como se tivesse chorado muito tempo'.

Em O Possível Baldi (1936), os mesmos temas reaparecem, inscritos com economia admirável no primeiro parágrafo do conto - isolado numa ilha de cimento em meio ao trânsito, o herói apalpa no bolso os honorários de uma causa jurídica -, e se complicam com a aparição de uma segunda personagem, uma desconhecida que inadvertidamente dispara as fantasias mais inconfessáveis de Baldi (suposto capataz de negros numa mina do Transvaal) e logo se torna vítima delas.

Mas não são apenas os temas centrais que logo se declaram: o mesmo vale para a feição do narrador, menos fabulista do que observador. De fato, nos contos de Onetti a ficção parece antes a cargo dos próprios personagens, todos eles entregues de corpo e alma a seu planos de fuga como ao que podem ter de mais essencial na vida. Nessa partilha de tarefas, cabe ao narrador observar ou, melhor, dar tempo a suas criaturas; não para que realizem seus desejos, é claro, mas para que vivam o curso inteiro do devaneio, da exaltação à frustração, até a hora em que comece a 'chover em seu sonho'.

Configurado precocemente, esse arranjo das peças sobre o tabuleiro levou Onetti, nas três décadas seguintes, a seu melhor momento de contista. Datam desses anos seus relatos mais inesquecíveis e dolorosos: Um Sonho Realizado (1941), Bem-Vindo, Bob (1944), Regresso ao Sul (1946), o magnífico Esbjerg, na Costa (1946), O Inferno tão Temido (1957), A Face da Desgraça (1960) ou Tão Triste como Ela (1963), para citar apenas alguns.

Se os primeiros contos ainda eram marcados, aqui e ali, pelo afã de modernizar a técnica narrativa à luz de Faulkner e Dos Passos, os contos da maturidade destilam as leituras estrangeiras e criam um tom inconfundivelmente onettiano, de ruminação ora melancólica, ora francamente vingativa, de quem fala consigo mesmo e não faz caso da presença do leitor, numa forma de narrativa que 'existiria do mesmo modo se ninguém a conhecesse nem a escutasse', como bem observou Antonio Muñoz Molina no prefácio a esta edição.

Por breves que sejam, seus contos parecem não ter pressa, escritos num andamento largo que permite a Onetti orquestrar situações complexas, de saldo quase sempre desolador. Um Sonho Realizado, por exemplo, envolve todo um elenco de personagens principais e coadjuvantes numa verdadeira dança macabra, em que o sonho mais caro confina com a morte, ao passo que Regresso ao Sul cobre vários anos da vida da figura central a partir de uma pequena brecha na ordem cotidiana, numa construção que lembra os primeiros contos de Cortázar.

Finalmente, não é de admirar que, tendo alcançado esse tom e esse andamento, Onetti acabasse por diluir as fronteiras entre os gêneros narrativos numa família de relatos que antecipam ou reexaminam heróis ou aspectos dos romances. É o caso, sobretudo, das histórias em torno do dr. Díaz Grey, a figura 'ficcional' que nasce do desejo de evasão de Jorge María Brausen, o protagonista 'real' de A Vida Breve (1950), como também é o caso de Santa María, a cidade 'fundada' por Brausen que serve igualmente de cenário a vários contos.

Ler esses relatos significa ingressar por uma via singular e pouco batida num sistema de vasos comunicantes que leva ao conjunto da obra de Onetti e, além dela, ao coração da literatura latino-americana do século passado. Alguns de seus relatos remetem imediatamente a Bioy Casares - tanto à Invenção de Morel como, mais ainda, ao ambiente de O Sonho dos Heróis e Plano de Fuga; outros fazem pensar em versões enxutas e exíguas de contos de Cortázar e mesmo de Borges, com quem às vezes parece manter um diálogo em surdina. Não é pouco para quem, nos últimos anos de vida, quase sempre deitado na cama e fumando sem parar, professava perfeito desinteresse pela vida literária e pelos rituais da fama - e é com certeza o bastante para merecer toda a atenção de seus novos leitores brasileiros.




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