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Todas as histórias já foram contadas

José Castello

Numa palestra proferida durante o colóquio Opiniões Contundentes, realizado no mês passado em Madri, o escritor espanhol Javier Marías declarou que há, hoje, uma saturação de ficções. Disse Marías, fatigado, que, em conseqüência, é muito difícil para um escritor encontrar histórias que já não estejam contadas. A literatura teria chegado a seu ponto de saturação, quando as soluções atingem a expansão máxima.
Ocorre (e eis onde Marías se engana) que a literatura não é um conjunto de soluções, mas sim de perguntas, sendo sua capacidade de expansão, mesmo sob condições de adversidade extrema, ilimitada. Além disso, repetir-se, ele também se equivoca, não é um sinônimo de fracassar. A raça humana, que se reproduz há milênios em homens e mulheres aparentemente iguais, é suficiente como demonstração do quanto pode haver (e há) de diversidade na semelhança.
Ao ler as declarações de Javier Marías me vêm à memória os últimos dias de um escritor que ele, por certo, conheceu muito bem: o uruguaio Juan Carlos Onetti, pobre velho, que passou os derradeiros anos de sua vida, em Madri, deitado sobre uma cama, exilado do mundo. Esse estado de imobilidade, que a medicina considerava doentio, na perspectiva da literatura pode ser avaliado como uma solução genial. Foi isso, ao menos, o que o próprio Onetti ensinou a meu amigo, o sr. Pereira.
Meu velho amigo, em viagem de trabalho à Espanha, e graças a uma namorada madrilena, sobrinha postiça do escritor uruguaio, teve a sorte de ser recebido por Onetti. Foi uma visita muito rápida, mas lhe bastou para trazer de volta algumas frases inesquecíveis - ao menos para mim. Quando Pereira entrou no quarto, encontrou Onetti de pijamas, deitado com o rosto contra a parede; murmurava algumas palavras que ele supôs formavam um poema. A sobrinha o cumprimentou, ele respondeu, mas continuou imóvel. E resmungando.
Uma senhora corcunda, envolta num xale longo, entrou com uma bandeja de café. As xícaras, Pereira não pôde esquecer, traziam inscritas a palavra "portazo" (que em espanhol define o ruído de uma porta quando bate). A sobrinha lhe explicou depois que aquele era o nome de uma pequena editora de Granada, que publicara, alguns meses antes, uma antologia dos contos de Onetti - e as xícaras, brindes que a casa oferecia aos livreiros. Pereira não se convenceu muito, mas não contestou.
Enquanto saboreava o café, a sobrinha elogiou as peônias que, expostas sobre uma jarra de cristal, decoravam o quarto do escritor. Onetti respirava em ritmo entrecortado (as listras do pijama davam saltos em suas costas) e não pareceu interessado. Só algum tempo depois, virou-se, estirando-se de barriga para cima, a cabeça acomodada sobre dois travesseiros altos.
Examinou meu amigo com um atenção inesperada, mas, depois de perguntar-lhe as horas, e não parecer muito surpreso com a resposta, silenciou.
A enfermeira (ela agora estava sem o xale e deixava ver seu uniforme branco) entrou novamente, com a bandeja de medicamentos. Enquanto ela acomodava o escritor na posição vertical, Pereira aproveitou para perguntar à namorada por que razão, afinal, ele tinha se retirado do mundo. Meu amigo não tem grande interesse por literatura; o único romance que leu, e não gostou, foi O Primo Basílio, de Eça.
"Meu tio cansou de escrever. Todas as histórias já foram contadas." A moça falou alto, de modo que Onetti, mesmo atrapalhado com um comprimido marrom do tamanho de uma barata, moveu os olhos em sua direção. Depois que a enfermeira se foi, meu amigo, não muito convencido, resolveu repetir a pergunta. Onetti respondeu: "Imobilizar-me foi a forma que encontrei para continuar a escrever." Aquilo parecia sem sentido, de modo que, mesmo constrangido, Pereira insistiu: "Quer dizer que o senhor ainda escreve, às escondidas?" Onetti não pareceu muito satisfeito, mas ainda assim disse:
"Agora que estou sozinho, para escrever basta pensar."
Meu amigo, que jamais ouvira falar de Onetti, não deu muita importância a essas palavras extraordinárias. Eu, contudo, não posso esquecê-las.
Pergunto-me, ainda hoje, que livros fabulosos Onetti escreveu em silêncio, deitado em sua cama madrilena, narrativas secretas que jamais leremos. Expus essa inquietação a meu amigo Pereira. Sem muito interesse, ele recordou:
"Bem, Onetti me disse que ele apenas contava para si mesmo, em silêncio, seus contos mais antigos, que lhe pareciam sempre novos e surpreendentes. E que isso lhe bastava."




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