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Juan Carlos Onetti (1909 - 1994)

Reanto Roschel

O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti morreu no dia 30 de maio de 1994 em um hospital de Madri às 13h, hora local. Onetti sofria de problemas hepáticos e há dez anos não saía da cama. Segundo seus familiares, o escritor morreu de parada cardíaca.

Onetti nasceu em Montevidéu no dia 1º de julho de 1909.

Viveu na Espanha desde 1975, onde se exilou depois de ser preso pelo regime militar uruguaio. Segundo o escritor Eric Nepomuceno, Onetti chegou à Espanha “abatido e querendo tranqüilidade. Vinha de uma temporada de horrores no Uruguai, primeiro num cárcere e depois num manicômio. Instalou-se em Madri, e lá ficou até o fim. Seu último livro, uma novela densa e tortuosa chamada ‘Quando Ya No Importe’, estacionou durante várias semanas nas listas dos livros mais vendidos na Espanha, do México e da América do Sul. O título abriga uma ironia dilacerante, bem ao gosto de Onetti”.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa considerou-o um dos fundadores da narrativa latino-americana moderna. Seu primeiro livro, El Pozo, foi publicado em dezembro de 1939.

A obra anunciava o estilo e o conteúdo da obra de Onetti, onde “há uma renúncia a todos os compromissos oficiais, e eles (os personagens) não assumem existência social, voltados sobre si mesmos”, como escreveu Bella Josef em um artigo de 1989.

O protagonista do romance, Eladio Linacero, é o protótipo de outros personagens de seus livros, entre eles Larsen, de El Astillero (1961) e Juntacadaveres (1964).

Seu romance La Vida Breve, editado em Buenos Aires em 1950, é o livro onde, segundo a crítica argentina Josefina Ludmer, “constitue-se o universo Onetti”. O escritor vivia na capital argentina desde 1941; iria embora em 1955, após o golpe de Estado que derrubou o então presidente Juan Domingo Perón.

É em La Vida Breve que aparece pela primeira vez Santa María (ou Santamaría), um cidade provinciana e imaginária, misto da vida de Buenos Aires e das cidades uruguaias, onde vive Juan María Brausen.
Onetti recriaria sua cidade mítica de Santa María em seus livros mais importantes (entre eles Deixemos Falar o Vento).

Segundo o escritor e ensaísta argentino, Juan Jose Saer, quando apareceu a primeira edição do romance La Vida Breve, de Onetti, “até seu próprio editor, consciente da extrema originalidade do livro, julgou necessário tranqüilizar seus possíveis compradores na apresentação da orelha: ‘Não se deve temer que se trate de uma experimentação literária, como se costuma qualificar depreciativamente todo abandono dos moldes notórios. É, pura e simplesmente, um romance com tudo o que lhe cabe: um relato fluido, coerente e ameno, que o leitor há de acompanhar com a mesma intensa curiosidade, da primeira à última página’”.

Onetti, antes de se tornar um escritor tão inventivo, trabalhou como carregador, garçom, caixeiro e, finalmente, jornalista. Sua mãe era brasileira, de uma família de fazendeiros do Rio Grande do Sul.
Em 1974, o escritor participou do júri de um concurso literário e premiou um conto onde aparecia um policial torturador. O contista foi preso. Onetti, que publicara o conto na revista que publicava desde 1939 (Marcha), também. O conto foi considerado “grosseiro e pornográfico” pelas autoridades.

Ao sair da cadeia, foi viver na Espanha. Em 1980, recebeu o mais importante prêmio literário em língua espanhola, o Cervantes.
Em 1993, publicou “Cuando Ya No Importe”, retornando a Santa María, após vários anos.

Onetti foi um homem que viveu insônias cruéis e terríveis. Segundo ele mesmo afirmou, passava as noites escrevendo frases. Sua literatura é fruto da interrupção do sono e dos sonhos, os quais Onetti recriava em seus textos, talvez por não tê-los.

Eric Nepomuceno, afirma que a obra de Onetti está, “toda ela, empregnada dessa atmosfera — nebulosa, renevoada — dos sonhos interrompidos. Seus personagens continuam sempre tentando, por inércia ou desespero, encontrar um sentido para suas vidas. Naquele que talvez seja seu melhor romance, ‘La Vida Breve’ um personagem dá uma pista básica do mundo de Onetti: ‘O mau não é que a vida nos promete coisas que não nos dará nunca; o mau é que sempre as dá, e deixa de dá-las’”.

Para Eric Nepomuceno, Onetti “viveu exilado do mundo. Nos tempos de Montevidéu, passou um período dirigindo as bibliotecas de um setor público que não tinha bibliotecas. Viveu sempre paixões avassaladoras e, quando não havia nenhuma, inventava ou lembrava. Foi um mestre exemplar. Escrevia a mão, e explicava: a caligrafia é mais lenta que a datilografia, mais lenta que as idéias, você é obrigado a sentir na mão cada palavra escrita. Assim Onetti pôs no papel contos absolutos e romances inatingíveis, como ‘El Astillero’ e ‘La Vida Breve’. Assim ele soube descrever com beleza inesperada e pungente as penitências e malezas da alma humana”.




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