AdvertenciasOrientacionesDescripciones |
Juan Carlos Onetti (1909-1994)Nina Atalla "Onetti viveu exilado do mundo. Nos tempos de Montevidéu, passou um período dirigindo as bibliotecas de um setor público que não tinha bibliotecas. Viveu sempre paixões avassaladoras e, quando não havia nenhuma, inventava ou lembrava. Foi um mestre exemplar. Escrevia a mão, e explicava: a caligrafia é mais lenta que a datilografia, mais lenta que as idéias, você é obrigado a sentir na mão cada palavra escrita." Um revólver à temperatura de um pênis ereto. Uma prostituta. Um tiro. Gotas que escorrem pela boca e lembram o esperma da ejaculação humana. Esta é a cena final de um conto de Juan Carlos Onetti. Um final amargo? Pois a amargura é um sentimento recorrente de toda obra deste que é considerado o melhor escritor uruguaio do século XX e um dos melhores em língua espanhola de todos os tempos. Onetti escreveu clássicos da literatura latino-americana como La Vida Breve (1950) e Junta-Cadáveres (1964). Antes de se tornar escritor consagrado - mais propriamente pela crítica do que pelo público - Onetti, que fugiu de casa aos 14 anos para virar jogador de futebol, foi garçom, contrabandista, carregador, caixeiro, funcionário público e por fim jornalista. Estreou na literatura com a novela El Pozo (1939). Em 1950 lança La Vida Breve, seu primeiro romance que daria o norte conceitual de toda suas publicações posteriores: a linguagem densa e intricada, a fusão entre realidade e ficção, atmosfera absorvente e sufocante e a cidade de Santa Maria. Santa María pode ser concebida como uma mistura de Montevidéu e Buenos Aires - cidade na qual o escritor viveu e foi preso político na década de 50. Nota-se em La Vida Breve, nítidas de influências de escritores do porte do francês Céline, do americano Faulkner e do argentino Borges. Juan María Brausen protagonista de La Vida Breve, é um homem obcecado pela retirada do seio de sua mulher e, por sua vizinha que solta longos de gritos de prazer à noite. O cotidiano de Brausen é retratado em minúcias, a angústia existencial do personagem chega ao completo sufocamento. O relato acaba por descambar numa mistura de sordidez, violência, brutalidade, num espaço onde não há linhas determinadas para o que é realidade e para o que é puro jogo ficcional. E Brausen se transforma no cafetão Juan María Arce e funda uma cidade - a mítica Santa Maria. Junta-Cadáveres, que também se passa em Santa Maria, traz a história do ex-presidiário Larsen famoso, por colecionar casos com prostitutas pobres e decadentes, o que valeu a alcunha do título do livro. Com o sonho de criar o prostíbulo perfeito, Larsen chega a Santa María. Seu "inocente" intento acaba por malograr. Através da história de Junta, Onetti faz uma alegoria da condição humana, sempre predestinada ao fracasso. Para o crítico e tradutor da primeira versão em português deste romance, Flávio Moreira da Costa, o escritor, mais do que inventar melodramas regionais, criou verdadeiros dramas universais, cheios de uma densidade sem malabarismos nem truques metafísicos. Em 1974, Onetti viveu um drama que o marcaria pelos seus anos seguintes. Em plena ditadura uruguaia, como membro de concurso literário, ousou a premiar um conto que relatava torturas praticadas por militares. A censura agiu, o resultado do concurso foi anulado, Onetti foi preso e depois foi transferido para um manicômio, de onde só sairia no ano seguinte para morar em Madri, cidade que viveria seus últimos vinte anos de vida. Juan Carlos Onetti morreu em 13 de agosto de 1994 de parada cardíaca. Sua obra, que ainda não teve o reconhecimento merecido, é um exemplo de amor ao ofício de escrever e de como se aprofundar na alma humana. A morte após dez anos de invalidez, decorrente de problemas hepáticos, foi um final triste e amargo. Como sua literatura, como a vida. Inicie sesión o regístrese para comentar | Enviar página | Fuente | Versión para imprimir | 115 lecturas
|
IdiomasLoginBuscarRastrear |