Jaime Cimenti
Juan Carlos Onetti, Prêmio Cervantes de Literatura de 1980, nasceu em julho de 1909 e morreu em 1994. É considerado o maior escritor uruguaio do século XX e um dos maiores em língua espanhola de todos os tempos. Onetti, cuja mãe era de origem brasileira, dividiu seus produtivos 85 anos de vida entre Montevidéu, sua cidade natal, Buenos Aires (onde morou de 1939 a 1941 e de 1943 a 1955) e Madri, onde viveu exilado a partir de 1975. Autodidata rigoroso que nem completou o ensino médio, foi editor do célebre jornal Marcha, funcionário da agência de notícias Reuter, publicitário, diretor da Biblioteca da Prefeitura de Montevidéu e, sobretudo e sempre, grande escritor. Em 1939 publicou El pozo, germe de toda sua produção posterior, que compreende uma larga série de sofisticados contos e romances como A vida breve, publicado no Brasil pela Editora Planeta.
Junta-Cadáveres, romance que a mesma editora lançou há poucos dias entre nós, foi romance finalista do conceituado Prêmio Rômulo Gallegos. O título da obra provém do personagem Larsen, aí conhecido como o Junta-Cadáveres, apelido que lhe adveio por se fazer “colecionador de prostitutas pobres” e do hábito de tratar as prostitutas experientes com certa tolerância e paternalismo, com uma condescendência interesseira e ao mesmo tempo mesclada de dolorosa piedade, desde que elas, claro, as mulheres, fossem aproveitáveis. Larsen, ex-presidiário, alquebrado, carregando seus muitos malogros, já cinqüentão, conclui que tinha nascido para realizar duas perfeições: uma mulher perfeita, um prostíbulo perfeito.
A narrativa abre-se com a chegada de Larsen e três prostitutas meio veteranas na estação da cidade de Santa Maria. Lá ele quer fundar o tal “prostíbulo ideal” e lá vai estabelecer o patronato das putas pobres, velhas, consumidas e desdenhadas. A intromissão insólita vem perturbar a ordem da cidade, a rotina das ruas palmilhadas pelo narrador. O conflito está armado. No início, os quatro “invasores” são recebidos com indiferença e um silêncio ameaçador que pouco a pouco se esgarça e se transforma numa cruzada moralista e impiedosa. Na verdade, a permissão para o empreendimento de Larsen foi concedida somente após um acordo entre um senador e o farmacêutico da cidade – que acreditava que, com a abertura do prostíbulo, as doenças tenderiam a aumentar, ajudando na venda de remédios.
Larsen e Santa Maria já estiveram em outras obras de Onetti, um escritor coerente em termos de formas e conteúdos, criador de universos e personagens muito bem imaginados e construídos. Um escritor desses que vale, vale muito a pena. Tradução de Luis Reyes Gil,