Juan Carlos Onetti: Tão Triste Como Ela

Láudano

Estou desde a páscoa em Porto Alegre, organizando o que havia ficado para trás na vida. Reencontro a cidade meio suja e em alguma medida, já diferente da cidade que deixei pra trás. Reabro minhas caixas de livros – quase nenhum deles foi comigo para São Paulo – e reencontro meus preferidos, Borges, Onetti, Lautréamont, meus volumes raros, cada um com sua história, que vou relembrando à medida que os vou abrindo.

Hoje releio um dos livros que foi o mais difícil de encontrar nos sebos e livrarias que conheci. Não compro livros pela Internet: nada substitui o prazer de encontrar um livro que você quer, folheá-lo, observar o estado da edição, conversar com o livreiro, regatear no preço, procurar alguma eventual indicação, encontrar algo absolutamente diferente do que se estava procurando. Certo, é um micro-prazer primitivo, demorado e patético, mas cada um tem seus vícios e este é um dos meus. Nenhuma Amazon é capaz de me comover dessa maneira.

Meu primeiro contato com este foi na biblioteca da gloriosa, em 1991. Procurava algo de outro autor quando o título na lombada me chamou a atenção: Tan Triste Como Ella y Otros Cuentos. Larguei imediatamente o que procurava e comecei a ler o volume de duzentas e poucas páginas, aleatoriamente. Li o menor conto, El Posible Baldi, de pé, em frente à estante da biblioteca. Ao terminar o conto, senti que meu castelhano era absolutamente incipiente para a história que estava lendo, que a aspereza e beleza do relato me escapavam. Li duas ou três vezes sem muito entender até encontrar uma tradução, acho que da L&PM, e me dar conta de que, como Guimarães Rosa, Juan Carlos Onetti é praticamente intraduzível. Nenhum neologismo, nenhuma invenção lingüística, nada disso: apenas o ritmo. Ritmo narrativo é algo quase inexplicável, mas qualquer bom leitor sabe do que se trata. Podemos dizer que se trata apenas de um artifício, uma construção mental, mas todo relato tem seu ritmo interno, mais ou menos reproduzível, mais ou menos inerente ao autor do relato. Talvez o ritmo narrativo esteja intimamente relacionado a outro conceito difícil de elucidar, o estilo. Talvez não.

Durante dez anos, de 1991 a 2001, procurei obsessivamente por este livro, em cada livraria. Tan Triste Como Ella y Otros Cuentos? Não, esta edição está esgotada, é espanhola, de Barcelona. Vendi o último volume há uns dois meses. Juan Carlos Onetti? Nunca ouvi falar. É peruano? Os peruanos estão na moda, parece. Uruguayo? Não, uruguayo só tenho Mario Benedetti, já li, gostei. Você não gostou de Benedetti, Rico? Sério?

Maio de 2001, dez da manhã, Montevideo, cinco graus centígrados, chove. Visto o sobretudo, desço as escadas de mármore carcomido do hotel em que me hospedo, digo um “buen día” a Don Moisés, o negro ancião que atende na portaria do hotelzinho barato, subo calle Ituzaingó até a Plaza Constituición, tomo o rumo da Plaza de la Independencia, daí à Dieciocho de Julio até a frente das estátuas da Universidad de La República, o Cervantes hirsuto apontando para calle Tristán Narvaja onde se encontram as librerías de canje, aquilo que chamamos por aqui de sebos. Textos. Canje de Libros. Clásicos. Textos para la facultad. Visito uma a uma, todas as livrarias da rua, até chegar na Babilónia Libros. Juan Carlos Onetti, señorita? El Uruguayo? Sí, tenemos. Acá, señor, mirá acá. Sólo un rato que yo le pongo la escalera. Subi a escadinha através da muralha de livros bem organizados nas estantes e lá estavam eles, próximos dos indefectíveis Octavio Paz, todos os livros de Onetti que eu procurara anos a fio. Dejemos Hablar Al Viento. El Astillero. Tan Triste Como Ella. Cuando Ya No Importe. Não sei se o sujeito que abriu a câmara do faraó na primeira pirâmide se sentiu tão imensamente feliz como eu me senti, naquela manhã, morrendo de fome – já passava muito das duas da tarde - ao encontrar aqueles quatro ou cinco volumes de madeira morta, fatiada e pintada de tinta preta. Não sei se vou ter outro dia desses na vida.

Mas o fato é que retomo posse dos meus Onetti, dos meus Chants de Maldoror, e, como o casal bêbado conversando e comemorando a virada do ano em “Justo el Treintaeuno” volto a saborear o veneno desse cara que é desconhecido no Brasil, na Argentina e até no Uruguay, amado e reconhecido na Espanha, autor de tangos para Carlos Gardel por uma aposta perdida e que é o melhor escritor contemporâneo que eu li até hoje. A partir de hoje, tomo a firme resolução de não me separar mais dos meus Onetti, não importa onde eu esteja. E se, contra a minha vontade, me enterrarem quando eu morrer, ponham pelo menos o meu Tan Triste Como Ella junto comigo no caixão, pra apodrecermos calmamente, com todo o tempo do mundo. E, se houver inferno, vou queimar na longa noite fria, com os pés descalços enterrados na geada, tossindo e leproso, mas áspero e bonito como uma frase de Onetti. E vivo.