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Tão triste como OnettiDaniel Piza Há alguns dias, antes de o sol voltar a tomar conta de tudo com sua costumeira indelicadeza, enquanto a garoa incessante do início do ano tamborilava na folhagem do jardim, entre uma música de Tom Waits e outra do Madredeus, cantada por essa extraordinária Teresa Salgueiro que está fazendo show em São Paulo, tive a companhia perfeita dos 47 Contos de Juan Carlos Onetti (Companhia das Letras). Não os conhecia, apesar de minha admiração pelos romances A Vida Breve e Junta-Cadáveres. A literatura de Onetti – como a de outro uruguaio que me encantou mais recentemente, Felisberto Hernandez – é triste, diferente e exigente; logo, imagino que não agrade a todos os leitores, assim como Angústia, de Graciliano Ramos, livro cujos 70 anos mal foram lembrados em 2006, é amargo demais para muitos paladares. No começo, os contos de Onetti (1909-1994) parecem romances que não se desenvolveram; em alguns, nem entendemos direito o que se passa. Mas, principalmente a partir de 1941, com Um Sonho Realizado e Bem-Vindo, Bob, ele emenda uma série tira-fôlego de pequenas obras-primas – e acentuo “pequenas” porque raros textos ultrapassam 20 páginas. São uns oito ou nove que foram escritos até o fim dos anos 60, o que dá uma média de quase dois anos para cada conto, pois o livro é uma reunião completa. No excelente prefácio, Antonio Muñoz Molina comenta a sensação de que essas criações, como os retratos de Velázquez ou o piano de Bill Evans, existiriam mesmo que não houvesse ninguém para testemunhá-las. É como se flagrássemos os personagens de Onetti no meio de sua vida e, sem ser apresentados formalmente ao seu passado, logo partilhássemos seu estado de espírito – como, acrescento, nas pinturas de Edward Hopper. A sensação segue conosco muito depois que fechamos o livro. Isso se cria, antes de mais nada, por sua habilidade descritiva, que vai muito além do registro visual. Na abertura de A Face da Desgraça, o narrador conta como uma garota de bicicleta passa ao longo da praia, pára, senta, tira as sandálias, penteia “descuidada” o cabelo e, depois de se calçar e levantar, se vira para ele: “Olhou-me com uma expressão desafiante enquanto seu rosto ia se perdendo na luz escassa; olhou-me com um desafio de todo o seu corpo desdenhoso, do brilho niquelado da bicicleta, da paisagem com chalé de telhado suíço e ligustros e eucaliptos jovens de troncos leitosos. Foi assim por um segundo; tudo o que a rodeava era segregado por ela e por sua atitude absurda.” Pela arte da escolha de palavras e ritmo, a cena banal traduz o que homens de qualquer latitude sentiram ou sentiriam em situação semelhante. No final do conto, como o título sugere, a descrição, igualmente minuciosa, será sobre algo bem menos vital... Quase sempre é entardecer nos contos de Onetti. Também chove muito. As mulheres, tão admiráveis em sua capacidade de insatisfação, nunca estão apenas onde estão. Em Esbjerg, na Costa, a dinamarquesa relembra para o companheiro, Montes, o cheiro das árvores e o tempo do degelo em sua cidade natal, e sua voz baixa – “com essa música que as pessoas fazem sem querer quando estão rezando” – o comove justamente por ser “aquilo que vinha da parte desconhecida dela”. Em O Álbum, a mulher conta para o narrador histórias de aventuras distantes e lhe explica que “só é chuva a que cai sem utilidade e sem sentido”. E em Tão Triste como Ela, história que faz jus ao título, a protagonista observa um dos homens que cavam a piscina até que, “quase feliz no centro exato da solidão e do silêncio”, toma um gole de conhaque e decide abordá-lo. A tragédia final não é narrada com menos suavidade. Como nos romances, os personagens estão todos desprotegidos, e tanto mais se percebem assim quanto mais buscam se proteger. Em Santa María, a cidade murada que Onetti inventou e reaparece em toda sua obra, a paz tão prezada – como a crença de que as versões locais dos grandes artistas europeus e americanos se equivalem a eles – não passa de letargia diante das imbecilidades alegres da televisão. “O crime, o pecado, a verdade e a frágil loucura não podiam nos atingir”, diz em A Noiva Roubada, para em seguida acrescentar a imagem inesperada, “não se arrastavam entre nós deixando, para injúria ou lucidez, uma fina, trêmula baba de prata.” E, no entanto, por trás de tantas vidas desencaminhadas, sentimos o interesse profundo do escritor pelas pessoas – e isso é, ou deveria ser, tudo que precisamos para seguir. Dá até vontade de dizer, como Tolstoi sobre as famílias, que as obras de arte felizes se parecem; cada obra de arte infeliz é infeliz à sua maneira. Acostumado a finais felizes ou expiatórios, o público se afasta das obras de arte tristes porque busca terapia, consolo, distração, só as admitindo como mensagem; não vê que na própria exploração da linguagem – não no sentido de abuso, mas no de aventura – está a “chama afirmativa” do autor, e que observar o mundo é seu combustível. A tristeza de Onetti, numa alquimia irônica que ele mesmo apreciaria, nada mais é que o prazer do leitor. Inicie sesión o regístrese para comentar | Enviar página | Fuente | Versión para imprimir | 308 lecturas
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