Ivan Schmidt
O jornalista, publicitrio e, acima de tudo, sempre escritor, Juan Carlos Onetti (1909-1994), nascido em Montevidu, Uruguai (sua me era de Quara, RS, na fronteira com a Argentina), falecido em Madri, menos conhecido no Brasil do que deveria, apesar de seus livros terem sido traduzidos e publicados em lngua portuguesa j no incio da dcada de 80. Foi o caso de Junta-cadveres e Deixemos falar o vento, lanados pela Livraria Francisco Alves Editora, na criteriosa escolha da Coleo Latino-Americana, coordenada por Bella Josef, Eliane Zaguri e Flvio Moreira da Costa, alis, assinaturas que conferiam inteira credibilidade quela iniciativa cultural.
A apareceram tambm Pablo Neruda, Jos Donoso, Ernesto Sbato e Ricardo Giraldes, entre tantos outros monstros sagrados da literatura da Amrica Latina, chamando a ateno do leitor brasileiro para o fertilssimo veio onde despontavam, e logo chegariam ao nosso conhecimento, os nomes universais de Jorge Luis Borges, Gabriel Garca Marquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortzar.
Preso de conscincia
Pois essa descoberta tardia de Onetti no se deveu a quaisquer cavilaes de esconsas panelinhas literrias, porquanto no eixo Montevidu-Buenos Aires, onde viveu e trabalhou por muitos anos como redator e diretor da agncia de notcias britnica Reuters, em agncias de publicidade e, mais tarde, como editor-chefe do aguerrido semanrio uruguaio Marcha, empastelado pela ditadura instalada no pas oriental, os romances e contos que publicara desde os anos 30 do sculo passado, foram recebidos com exemplar frieza pela crtica e indiferena do pblico. Onetti somente passou a desfrutar do mesmo interesse dedicado aos grandes autores latino-americanos depois de exilado na Espanha, em 1975.
Antes do exlio, entretanto, amargou alguns meses como preso de conscincia, ao lado de vrios outros jornalistas, intelectuais, polticos, estudantes e trabalhadores que ousaram desafiar a bestialidade, logo transformada em perseguio e torturas inominveis, dos aclitos do golpe desfechado no Uruguai a 27 de junho de 1973, quando o ento presidente Juan Mara Bordaberry, por ordem do comando supremo das Foras Armadas, assinou o decreto de extino das cmaras legislativas. Um ato servil que escancarou as portas para o mais brutal dos regimes de exceo conhecidos na Amrica do Sul.
Angstias existenciais
Resta o consolo que Onetti custou tambm a ser descoberto pelos amantes da literatura de qualidade no prprio Rio da Prata, onde viveu at completar 66 anos de idade. O reconhecimento de sua contribuio para a modernidade da fico escrita na Amrica Latina veio em 1980, em Madri, ao receber o Prmio Cervantes, mesmo ano em que o Pen Club da Espanha lanava sua candidatura ao Prmio Nobel de Literatura. Atualmente a obra de Onetti est traduzida em mais de vinte idiomas.
Homem taciturno e enigmtico, Onetti criou uma cidade imaginria Santa Maria , referncia perenizada em seus escritos que, baseada nas poucas indicaes explcitas, supe-se uma evocao nostlgica de sua cidade natal, Montevidu, que por vrias dcadas dividiu fraternalmente com Buenos Aires, na outra banda do Prata. Os crticos tambm tiveram dificuldade para distinguir se os personagens Daz Grey, Junta-cadveres, Larsen e Brausen, recorrentes na obra de Onetti, so uma s ou diferentes pessoas. Resposta ainda oculta, diga-se a bem da verdade, pois o criador da saga e dos protagonistas sempre negou pistas que ajudassem a aclarar identidades e similitude de gestos, palavras ou angstias existenciais. Crticos renomados da literatura escrita em espanhol da Amrica, como Emir Rodrigues Monegal e Jorge Rufinelli, amigos ntimos do escritor, examinaram-lhe a obra em profundidade mas pouco sacaram alm da iluminada competncia narrativa que lhe assegurou o mesmo pdio dos maiores escritores dessa parte do mundo.
"Isto puro Faulkner"
Rufinelli dizia que o uruguaio enredara a todos os seus leitores e crticos, quem sabe, a si prprio, na misteriosa trama de seu processo criativo. E dava a entender que se "ao fim e ao cabo o prprio Jeov jamais explicou como fez a luz no primeiro dia e criou o sol no quarto", por que um simples mortal deveria dar mostras de maior coerncia?
Pouco depois do aparecimento do romance de estria, A vida breve, em 1950, lanado pela Editorial Sudamericana de Buenos Aires, Onetti conheceu Emir Monegal, Mario Benedetti, Manuel Claps, Idea Vilario e outros intelectuais montevideanos unidos em torno da revista literria Nmero, magazine de claro vis cosmopolita transformado num marco do movimento artstico uruguaio.
Claps recordou que certo dia Onetti lhe confiou um captulo de A vida breve para ser aproveitado na revista e, ao se encontrar com Hctor Murena no ptio da Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires, mostrou-lhe o manuscrito. O amigo leu aqui e ali e proclamou: "Isto puro Faulkner", ensejando o seguinte comentrio: "Sim, mas mais que Faulkner, uruguaio." Da em diante, para o grupo da revista Nmero, Onetti passou a ser um dos poucos autores nacionais cuja obra realmente tinha importncia.
Criador magistral
Em fevereiro de 1962 viria o primeiro reconhecimento oficial dos meios cultos uruguaios ao conjunto da obra literria de Onetti com a outorga do Prmio Nacional de Literatura, partilhado com Francisco Espnola. Na entrega do galardo, Espnola fez um longo discurso e quando chegou a vez de Onetti, este se levantou e disse: "Eu no falo, escrevo." Um bigrafo anotou que Onetti vivia e escrevia para si e, como queria Joyce, ia para o outro lado da mesa a fim de receber e ler suas prprias cartas. Seus livros continuaram saindo: Junta-cadveres (1964), El astillero (1967), Novelas cortas completas (1968), at que, em 1970, a Aguilar fez o lanamento do volume Obras completas. Pouco depois comeou a trabalhar no semanrio Marcha, do qual se tornou editor-chefe, de resto, um dos jornalistas uruguaios mais temidos e odiados pelos golpistas. Onetti permaneceu na funo at a clausura do semanrio, a priso e o exlio.
Com o recentssimo lanamento do volume 47 contos de Juan Carlos Onetti pela Companhia das Letras, em primorosa traduo de Josely Vianna Baptista, temos disposio toda a narrativa curta do magistral criador, na verdade uma obra em progresso iniciada em 1974 por Ediciones Corregidor, de Buenos Aires, responsvel pela publicao da primeira edio de Cuentos completos, sendo o prlogo assinado pelo crtico Jorge Rufinelli. Na primeira edio eram 22 os contos recolhidos de vrias revistas e suplementos literrios publicados na Argentina e Uruguai, publicados entre 1933 e 1970.
Meu exemplar foi comprado em 1993, em Porto Alegre, numa livraria da famosa Rua da Praia.
Mosaico de fragmentos
Escrevia ento Rufinelli que a leitura ordenada da narrativa breve de Onetti permitia a observao da profundidade das experincias encerradas nos temas escolhidos, num movimento centrpeto que intentava circunvagar vivncias, histrias e circunstncias para, em seguida, iluminar seus contedos. Na atual traduo, de Josely Vianna Baptista, a introduo de Antonio Muoz Molina (1994), na qual declara no ter parado de ler Onetti desde que o descobriu: "Em cerca de vinte anos essa uma das poucas coisas que no mudaram em minha vida." E a confisso faz inteira justia admirao que um leitor aprende a cultivar em relao a determinados autores. Molina acrescenta que "um dos poucos traos que me unem a quem fui e j no sou a leitura de Juan Carlos Onetti, e praticamente a nica coisa que continua me acompanhando, de todas as que possua nos tempos em que comecei a l-lo, esse exemplar de seus Contos completos que adquiri no Crculo de Leitores: um livro de capa preta, de letra bem pequena e folhas que esto ficando amareladas, assinado e datado na primeira pgina com aquela ambio de propriedade com que se entesouravam, ento, os poucos livros que se podia comprar, num tempo que, visto de agora, quase parece outra poca: dezembro, 1975".
Oportuno refletir no significado dessa advertncia de Molina: "Lendo Onetti, vamo-nos transformando, sem perceber, em algum de seus personagens." Tanto pode ser um homem solitrio em seu quarto, deitado na cama, ou em p, atrs de uma janela, ou debruado numa sacada, sentado mesa de um bar, ou junto das vidraas que do para uma praa, que costuma ser a praa de uma cidade fluvial e provinciana chamada Santa Maria. Esse homem (ou mulher) conta histrias, fuma, bebe, observa e atribui a si e aos outros, vidas falsas que constituem os pontos de partida em torno dos quais se ramificam as narrativas.
No h perigo, no entanto. Ao contrrio, a aventura ser intensa em prazeres e emoes. O desfrute dos escritos de Onetti faz-nos assomar o variegado mosaico de fragmentos que retratam, um a um, tudo o que a vida tem de estupidez, sensibilidade e beleza.
47 Contos de Juan Carlos Onetti Contos Completos, traduo Rosely Vianna Baptista, 442 pp., Companhia das Letras, So Paulo, 2006