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Nove de julho
Aurora falou da história do pais fabuloso quando, tarde da noite, concordou em subir ao quarto de Grandi para tomar chá e atravessou o grande pátio do terraço, dilatado pela lua, para bater muito de leve na persiana da porta. Ele a viu sorrir, o corpo encolhido, e entrar com passo rápido e silencioso, arrastando os pés com suavidade, as mãos escondidas debaixo do casaco e um capuz na cabeça; carregada de mistério, de ilegalidade e de uma alegria movediça enquanto ficava de costas para ele, no último ritual de lhe esconder o rosto. Depois sentou-se na beira da cama, olhando a base do cone de luz projetado sobre seus sapatos, falando com um tom de voz desconhecido, sujeito a um desnecessário sussurro, a respiração veloz que fazia com que mostrasse a ponta dos dentes na boca escurecida. E além do inevitável, além deter uma moça na noite de seu quarto, Grandi não sentiu nenhum desejo especial por ela, nenhum impulso de aproximar-se para tocá-la, certo além disso de que a moça estava tão vazia como ele, naquela noite e nas outras. Mas estava rodeada e carregada de aventura e temia o fracasso como se teme uma ferida. A falsidade fazia com que ela se enganasse, confundisse os movimentos, esquecesse frases imprescindíveis que ele continuava esperando muitos minutos após o momento em que deviam ter sido ditas. Do incompreensível compromisso de permanecer desconhecida para ele, Aurora extraía gestos estranhos, sorrisos de uma mulher qualquer, movimentos alheios que pareciam se suceder fora de seu corpo e que seu corpo mostrava esquecer em seguida. Depois descansou, finalmente no último momento da noite, com a boca aberta e torta, surpreendentemente feia, afastando-se dele com os cabelos que ondulavam na penumbra até o tapete. Agora podia, ainda, recordá-la penteando-se na frente do espelho do armário e examinando a cara; buscando em silêncio, ansiosa e decepcionada, uma novidade qualquer; mendigando à imagem da moça de nariz longo, desbotado, uma marca minúscula, uma ruga ou um resplendor que tivessem sido acrescidos e que pudesse contemplar amanhã e usar como caminho certeiro para reconstruir a noite e conhecer a mulher que tinha estado com Grandi. Também podia recordá-la, um momento antes, aproximando seu sorriso da luz um pouco sangrenta do fogareiro onde sussurrava a água para o chá, de cócoras, afastando bruscamente a cata para examiná-lo e piscar, sempre sorrindo; mas não com o sorriso enfeitiçado que tinha aproximado do fogareiro e que a isolava junto ao resplendor circular, e sim com a cumplicidade aceita que não se referia à noite e ao que esta pudesse conter; que estava além da sensualidade e que unta ambos na inteligência no inexpressível da vida e das variantes do destino humano. O olhar agora quieto, colocado em sua visão imediatamente após a zona de ar que perturbava a forma das flores e tratava de evocá-la –essa testa redonda que branqueia na luz, essa orelha grossa e firme, essa aplacada raia da boca– junto à sua cara nas noites daquele outono e daquele inverno. Evocava a neblina do medo nos olhos da moça, a frase estúpida que ela balbuciou quando resistiam. Uma tarde ela disse a ele que não queria mais vê-lo, e pediu-lhe que se mudasse. Começou a passar ao seu lado na escada da pensão ou no refeitório sem olhá-lo, sem o propósito de fugir dele, sem mostrar estar ocupada na construção de algo que servisse para separá-los, como se ela mesma tivesse se abatido repentinamente com suas mãos, vazia e frouxa, sem nada para dar. Naquele tempo Carlota começou a vir comer algumas noites com Aurora e o pai, e Grandi se distraia comparando a cara da sua amiga com o perfil louro da outra, que mostrava um único olho solitário separado do nariz reto e angelical. Depois teve um excessivo final de quarenta e oito horas, afundando no remorso e no terror e na descoberta do pecado. Tudo junto, empurrado dentro dele com raiva e força para que tudo pudesse caber; uma única vez na vida, era verdade, mas inesquecível e ainda angustiante. Essa mesma mão que se enlaçava agora com a de Julio tinha estado contraída rodeando-lhe um braço enquanto o táxi avançava com dificuldade, ás onze da manhã, um nove de julho, entrando entre a multidão que esperava e perseguia os ônibus, fazendo soar uma insuportável buzina entre as casas embandeiradas e as pessoas com fitinhas no peito. Ele ia sentindo o ódio retido de Aurora girando na cabeça que a moça apoiava num canto do carro, e media o medo pelas contrações dos dedos em seu braço, um medo animal frente à iminência do martírio que a obrigava àquele contato, a unir-se a qualquer ser vivo, Grandi inclusive; a difundir em qualquer outro sua consciência, a quebrar a solidão com a ponta dos dedos apertados contra o calor de um braço para que o medo não conseguisse tomar conta dela inteira. Grandi conheceu o imperdoável sorriso e a prolongada palavra de ternura na porta do consultório; conheceu o café fervente bebido de um gole no bar da esquina, o primeiro telegrama de um jornal de cinco centavos relido uma e outra vez, com os dentes apertados, sem entender. Conheceu a lentidão do trêmulo ponteiro dos segundos na esfera amarelada do relógio, o olhar com o qual esteve lambendo as caras das pessoas no baldo e através dos vidros do bar, suplicando uma expressão qualquer, um gesto, um defeito ou uma peculiaridade física capaz de distraí-lo e de interpor-se entre ele e a rígida imagem de uma mulher perna-aberta entre urgência, algodões e sangue. Depois ficou esperando na esquina, apoiado numa árvore, sufocado quando as pessoas o cercavam e perdido quando o abandonavam para apanhar os carros. Entrou numa padaria e telefonou para Lankin cravando enfurecido o dedo contra o número ocupado. Regressou esquina e começou a passear: da terceira árvore viu Lankin no terraço, inclinado, enorme, movendo a cabeça para procurar, com a túnica aberta. Então teve certeza de que a moça tinha morrido e soube que havia um castigo para a culpa; sentiu-se repentinamente em paz, solitário e protegido de qualquer dano. Subiu lentamente a escada conversando com a enfermeira. A sala de espera estava vazia. Quando a mulher vestida de branco deixou-o sozinho, abriu a porta do consultório e viu Aurora esticada na maca, com as pernas tapadas pelo casaco; e enquanto foi se aproximando, ouvindo o inevitável roçar dos sapatos no linóleo, amou desesperadamente a cabeça pálida de olhos afundados e fechados numa adiposidade azulada, e o nariz longo, de orifícios escuros. Aurora moveu a cabeça e olhou-o; sorriu em seguida e ele teve de inclinar-se, esticar o braço e acariciar os cabelos da moça. Lankin abriu a porta e disse uma frase rindo. Nunca tinha falado tão alto. Grandi apoiou-se na maca e olhou para Aurora agradecido. Depois discutiu com Lankin, que andava com um livro na mio, enquanto escutava as vozes e as buzinas da rua, os ruídos da empregada na sala de refeições pondo a mesa para o almoço. Disso tudo, depois, nada mais que algum olhar fixo de Aurora quando vinha buscar Carlota e tinham que esperá-la juntos. –Não deve haver nenhuma lembrança dela– pensou –e nos une somente o fato de que ela possa manter seus olhos imóveis em minha cara, silenciosa, durante um tempo; e que eu possa medir em seu rosto, em seus movimentos e em sua maneira de fazer as frases tudo o que foi sendo acrescentado a ela, tudo o que lhe foi tomado ou que jaz nela, sem vida, sem influência, como a pequena cicatriz que tinha junto ao olho esquerdo e que agora desceu até o meio da face. E isto basta para que ela seja outra mulher, para que nunca tenha estado nua comigo, distante igualmente da minha lembrança e da moça de nariz longo que comia de costas para a lareira na casa da pensão. Ela não poderia imaginar nunca como essa isolada e submersa lembrança que persiste em viver sem alimento chegou a ser meu segredo e quanta importância tem em meio minha confissão quando quer me olhar. Mais significativa que tudo, está a noite em que ela se inclinou junto ao fogareiro e persiste o meio-dia em que o táxi avançava lentamente rumo à casa de Lankin.– "Eu vou passear" disse Lankin. "Não quero esperá-los." |
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