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A permanência de Onetti

Adelto Gonçalves

De repente, com atraso considerável, o Brasil começa a descobrir o uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994). De Onetti, filho de mãe brasileira e com nome de origem irlandesa (O´Nety), no Brasil, foram publicados “Juntacadáveres” (Junta-Cadáveres, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968), “Dejemos hablar al viento” (Deixemos falar o vento, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1981) e “Tan triste como ella” (Tão triste como ela, São Paulo, Companhia das Letras, 1989), enquanto, em Portugal, saiu “El astillero” (O estaleiro, Lisboa, Edições 70, 1981). Agora, a editora Planeta, de São Paulo, lança “A vida breve” (La vida breve), romance de 1950, e promete para logo a edição brasileira de “O estaleiro”. Muito pouco para quem é considerado um dos maiores nomes da literatura latino-americana do século XX.

De qualquer modo, o desconhecimento sobre Onetti no Brasil começa a ser vencido com a iniciativa da editora Planeta de editar seus livros. Mas já no ano passado a “Fragmentos - Revista de Língua e Literatura Estrangeiras”, da Universidade Federal de Santa Catarina, n/o 20, dedicou uma edição especial ao escritor, organizada pelos professores Liliana Reales e Walter Carlos Costa.

A respeito de Onetti, escrevi o artigo “O exercício da solidão”, que foi publicado na revista “Discurso Literário”, n/o 2, vol. III, primavera de 1986, da Oklahoma State University, EUA, publicação que era dirigida pelo professor paraguaio Juan Manuel Marcos, mas os organizadores da recente edição da “Fragmentos” desconhecem o texto porque não o mencionaram na extensa relação que fizeram acerca de obras e textos sobre o escritor.

O título do artigo serviu, aliás, para nomear uma coletânea de escritos sobre literatura hispano-americana publicados na imprensa que me rendeu o Prêmio Assis Chateaubriand de 1987, da Academia Brasileira de Letras. O prestígio da Academia, porém, não foi suficiente para despertar o interesse de algum editor em publicá-la.

Na revista “Fragmentos”, entre vários estudos importantes, há um texto, “Los últimos días montevideanos de Onetti (apuntes para un episodio de su biografía)”, em que Pablo Rocca, da Universidad de la República, de Montevidéu, narra a prisão de Onetti, em 1974, determinada pela junta militar que infelicitava o Uruguai, depois que o semanário “Marcha” publicou o conto “El guardaespaldas” (O guarda-costas), de Nelson Marra, que havia obtido o primeiro lugar em concurso promovido pelo próprio jornal.

A história narra o vínculo homossexual entre um comissário de polícia e seu guarda-costas e a morte da autoridade nas mãos de uma organização guerrilheira. No Uruguai, não haveria quem não vinculasse a história ao comissário Morán Charquero, que havia sido assassinado por um comando do movimento guerrilheiro Tupamaros. Por isso, o conto serviu de pretexto para que os militares fechassem o semanário “Marcha” e colocassem na cadeia Onetti e a professora Mercedes Rein, que haviam feito parte do júri do concurso. O professor Jorge Ruffinelli também havia participado do júri, mas teve a sorte de ganhar uma bolsa de estudos e viajar para o México pouco antes da tormenta.

Ao se ver livre das garras da ditadura, Onetti viajou para a Espanha, que, à época, livrava-se também do regime fascista de Franco. Adotou a cidadania espanhola e nunca mais quis saber de voltar ao Uruguai: uma decisão difícil para quem, já com 64 anos de idade, imaginara encerrar seus dias em Montevidéu. Em Madri, porém, Onetti, reconhecido, viveu dias melhores: em 1979, publicou “Dejemos hablar el viento” e, em 1981, recebeu das mãos do rei Juan Carlos o prêmio Cervantes, o mais importante da língua espanhola. E ainda publicou mais dois romances, “Cuando entonces” (1987) e “Cuando ya no importe” (1993).

Em Montevidéu, saíram ainda outros livros em que reuniu contos e textos publicados no semanário “Marcha”: “Requiem por Faulkner y otros artículos” (Arca, 1975), “Cuentos secretos: Periquito el Aguador y otras mascaras” (Biblioteca de Marcha, 1986) e “Periquito el aguador y otros textos: 1939-1984” (Cuadernos de Marcha. 1994).

Em “Monegal, leitor de Onetti”, o professor Walter Carlos Costa, da Universidade Federal de Santa Catarina, reconstitui o relacionamento tumultuado entre Onetti e o crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal (1921-1985), autor de uma biografia de Jorge Luís Borges e outra de Andrés Bello. Costa conclui que, provavelmente, algumas das ácidas críticas que Monegal fez a Onetti, de quem não tinha o distanciamento necessário, teriam ajudado o escritor a superar algumas dificuldades iniciais no romance.

Para Monegal, embora o contista Onetti já fosse mestre na descrição, seguindo a técnica de William Faulkner, no romance carregava vícios como “adjetivação repetida, diálogos injustificados”. Essas críticas concentram-se especialmente sobre o romance “Para esta noche” (1943), cujos “inconvincentes personagens seriam meros conceitos”.

Seis anos depois, Onetti escreveu “A vida breve”, publicado em 1950, romance que agora sai no Brasil. Como observa Costa, segundo Monegal, esse romance marcaria a segunda etapa da carreira do escritor. Para o crítico, este é o seu romance mais ambicioso e complexo no qual aparece pela primeira vez a mítica cidade de Santa Maria, inventada por um de seus personagens, mas que voltaria em obras como “Juntacadáveres” e “Dejemos hablar al viento”. É uma cidade que reúne os ingredientes da melancólica Montevidéu e da grande Santa María de los Buenos Aires, que já carrega em seu nome a fonte de inspiração do autor.

Para Monegal e outros críticos que se debruçaram sobre a obra onettiana, “A vida breve” é o melhor livro do escritor, embora tenha escrito contos inesquecíveis como “Un sueño realizado”, “Bienvenido, Bob”, “La nobia robada”, “El infierno tan temido” e outros que saíram em “Cuentos completos”, em 1974, pela Corregidor, de Buenos Aires, quase à mesma época em que Onetti tinha seus problemas com a ditadura militar uruguaia.

Sempre excessivamente crítico em relação a Onetti - o que se explica porque eram da mesma geração e disputavam, de certa forma, o mesmo espaço no reduzido ambiente artístico uruguaio -, Monegal observou que, em “A vida breve”, o romancista não soubera esconder as marcas do seu trabalho de construção, deixando evidente o quanto devia a Céline, Faulkner e ainda a Jorge Luís Borges. Fosse como fosse, a verdade é que, embora muitos atribuam maior valor literário a livros da maturidade de Onetti, como “Para una tumba sin nombre” (1959), “El astillero” (1961) e “Juntacadáveres” (1969), é em “A vida breve” que a obra de Onetti alcança o seu grau maior de transcendência.

Em “A vida breve”, Brausen, personagem-narrador, vive diversas personalidades, que se alimentam e destróem entre si. As cenas se repetem e mudam como alternativas possíveis, pois “se pode viver muitas vezes muitas vidas mais ou menos extensas” e os sonhos são outra forma da realidade, como observa o autor.

Brausen vive um momento decisivo em sua vida: sua mulher teve de extrair um seio ao mesmo tempo em que ele conhecia as incertezas do desemprego. O protagonista imagina escrever um roteiro para o cinema e começa a viver uma aventura, sob nome disfarçado, com uma prostituta que mora ao lado. Tudo isso se embaralha na mente de Brausen – o roteiro cinematográfico, o envolvimento com a prostituta -, mas embaralha-se também na mente do leitor, suscitando dúvidas.

Onetti dizia que não preparava nada antes de escrever: “se há ternuna, sai, se há posição política, sai, queira ou não o autor”, disse numa entrevista de 1969 republicada em “Requiem por Faulkne y otros artículos”, ao explicar que não dava muita importância às técnicas literárias. “A única coisa que peço é que sejam usadas quando são necessárias e não por recurso ou moda. Pense, por exemplo, no “boom” da literatura latino-americana. Um par de anos e apenas permanecerá o legítimo”. De fato, o “boom” passou, mas Onetti permaneceu.




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