Reflexões sobre humanidade

Juan Carlos Onetti

Começo estas linhas com uma recriminação que provém dos meus ossos e memória, e insiste: estou plagiando. Na verdadeira literatura talvez se trate de um pecado grave que, no entanto, não afeta de forma alguma um artigo que se proclama jornalístico.
Porque todos sabemos que Shakespeare roubou temas sem se preocupar com terras ou épocas. Ou, transferindo a atenção para outras estaturas da inteligência, recordo Jorge Luis Borges declarando, junto ao túmulo de Macedonio Fernández, seus gozosos plágios dos dizeres e escritos daquele homem que nunca existiu, que foi e continua sendo uma brincadeira metafísica. Nos casos citados, sem importantes discriminações, os ladrões melhoraram o roubado. Como dizia meu inseparável amigo Anatole France, o plágio se justifica quando envolve assassinato.
No entanto, essa incerteza não suprime nem atenua a inquietude referida ao início. Embora sem provas sei que alguém escreveu, não sei há quanto tempo, o artigo em que estou trabalhando. E, para aumentar minha vergonha, ouvi muitas vezes, e sempre com assombro e repugnância, a frase que utilizo como título: “Reflexões sobre humanidade”.
Quando se comenta que o caixa de um banco comprou uma passagem de avião para o Brasil, aparentemente um reduto inexpugnável, e encheu os bolsos e a mala com dinheiro alheio, sempre aparece alguém com um falso semi-sorriso bondoso para interpretar:
- Bem... isto é humano. Ver todos os dias tanto dinheiro...
É humano. E isto pode se aplicar, e aplica, a outras façanhas ainda mais repugnantes.
Lembro-me repentinamente de Zelda Fitzgerald, uma velha amiga. Em sua infância/puberdade ela adorava o pai, carinho retribuído de forma exagerada, pois Zelda era muito bela. No fim das contas, isto é humano. Mas o papai desfrutou sem castigo e a menina ficou traumatizada, e com o passar dos anos o trauma se transformou em loucura e foi preciso interná-la.
Além disso, como havia pecado tanto por carinho, a Divina Providência ordenou que ela fosse queimada viva no manicômio em que a trancaram. Claro que não era a única residente: umas trezentas loucas morreram com ela. Ignora-se a origem da demência de suas colegas. Suspeito que se tratava de outros atos, que, no fim das contas, eram humanos.
Estas duas recordações chegaram sem ser chamadas. Abundam exemplos de empresários, em todos os países em que me estiverem lendo, que embolsam alguns milhões de dólares para adoçar exílios. E, de acordo com o que me contam, eles se exilam confortados por louras companhias. Isto se estende a excelentíssimos presidentes de repúblicas bananeiras. Como não atribuo a mim mesmo a categoria jornalística dos boys que mandaram ao nada um delinqüente comicamente exculpado pelo amigo sucessor que ele mesmo escolheu, por enquanto suspendo este assunto.
Basta, ou me satisfaz, abrir as páginas do meu jornal para me sentir repleto de fatos que, no fim das contas, são humanos. Pertencem ao corrupto sentido da palavra humanidade que hoje se disseminou pelo mundo. Mas, claro, ainda não conseguiu manchar nem a mim nem a meu leitor.
Existem alguns fatos notáveis: um senhor que assassina a mãe com uma espingarda; na história universal de humanidades que planejo escrever fica registrado outro matricídio por justa causa: outro filho, outra mãe cruel que lhe serviu a sopa fria. Recordemos uma família unida e cristã que aproveitou a sesta do pater para estourar seus miolos. Talvez se trate aqui da simples e perdoável prática da eutanásia antecipada. Algum dia a vítima ia adoecer, sofrer e morrer.
Outros humanos ou humanóides percorreram as calçadas uma manhã e se depararam com a chocante presença de uma mulher caída, agonizando. Era um perigo, talvez se tratasse de um caso de lepra, hidrofobia ou catarro. Por isso todos se apressaram, não por covardia ou indiferença, mas pelo temor de que os vírus os atacassem como um cão carinhoso e depois... dócil, humanamente, a senhora morreu de asfixia.
E uma lembrança mais ou menos longínqua: em uma linda avenida ou passeio público um homem, cuja identidade duvido que tenha sido possível estabelecer, foi atropelado por um carro. Teve o capricho de permanecer quieto no chão e, devido a essa provocação (estavam na chamada hora de pico), vinte e oito carros passaram por cima do que ia restando. Ninguém parou, ninguém chamou a polícia nem a Cruz Vermelha ou Verde.
O que ocorre é que os humanos que dirigiam os carros tinham estado trabalhando em seus escritórios. Talvez, por contágio inevitável que pude ver pessoalmente, com os sapatos, pés, em cima da escrivaninha. De modo que era humano seu desejo de chegar o quanto antes à sua casinha, à gorda mal-humorada de sempre, à ternura de seus filhinhos. De qualquer forma o cadáver amassado não podia ser ressuscitado, podia ser um ex-cão, um vulto esquecido.
Mas isto me faz pensar no alguém que, sentado na grama, contabilizou vinte e oito, sem se mover, sem intervir, por pouco que pudesse fazer. Talvez contasse, computador também humano, talvez esperasse paciente o final daquele exemplo de brutalidade humana para se inteirar de que o número vinte e oito era infalível no próximo jogo de loteria.
No entanto, tudo isso não tem importância. Passemos ao que interessa. Ainda não se conhece o verdadeiro resultado da luta entre argentinos e ingleses, contabilizado em vidas. As informações de guerra ou paz diferem tanto que nos fazem duvidar. Outro aspecto humano. Pelo menos os judeus proclamam ter massacrado uns dez mil libaneses estrita e absolutamente civis. E quem alguma vez duvidou de palavras ou promessas judaicas?
Por fim, antes de chegar o que pressinto, devemos aceitar que os quatro bilhões de seres vivos que existem ou sub-existem ou simplesmente estão no planeta, incomodam. Conseqüentemente, como já foi dito, as guerras significam saúde e equilíbrio, com algumas centenas de milhões de defuntos.
Para dar categoria de atualidade e cultura a este artigo, cito o caso de um nobre cavalheiro germânico que desejava aumentar seus conhecimentos assistindo e ouvindo em sua televisão a transmissão de uma partida deste Mundial que padeço. Sua mulher queria chorar graças a um filme de terror.
Havia apenas uma televisão; havia apenas uma mulher. Por isso a frau foi jogada pela janela e aterrissou com o desejado pranto e algumas costelas partidas. Assim o homem pôde presenciar como os argentinos davam um baile nos seus compatriotas. Über alles.
Devemos refletir sobre o fato de que, se a terra iniciou um período de braços caídos, deve ser por algo alheio à nossa compreensão. Para que demônios continuar se movimentando? Segundo a segundo atrasa, por fadiga e desencanto, a tarefa que lhe foi imposta há tantos milhares de milhões de séculos atrás.

(Junho 1982)

http://www.memorial.org.br/nossamerica/21/port/32-reflex_human.htm